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Liam Gallagher na luta contra o ACTA, SOPA e PIPA.

“Download é o mesmo que eu fiz: eu costumava gravar em fitas K7 as músicas, os sucessos que eu gostava do rádio. Eu não me importo. Eu odeio ver todos esses astros do rock reclamando. Pelo menos eles estão baixando sua música seu maldito idiota, e estão prestando atenção em você. Você sabe? Você deveria apreciar isso. Do que você está reclamando? Você tem cinco casas enormes, então calem a boca.” Liam Gallagher.

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Como o fim do Copyright pode contribuir para melhorar a qualidade musical.

Estamos em meio a uma guerra. Uma guerra virtual, sem mortos ou feridos (por enquanto), mas uma guerra que pode afetar a vida de todos nós no âmbito da cultura. De um lado, estão as grandes gravadoras, as grandes produtoras de cinema. De outro, o usuário, o consumidor, que já se acostumou a compartilhar seus arquivos digitais e não sabe mais o que é comprar um CD original. Parece bem claro que as forças são desiguais, principalmente porque o mercado do Copyright, com grande potencial de lobby, ainda acaba recebendo amparo dos governos e de novas legislações que tramitam em diversos países. Já o usuário acaba ficando indefeso diante da atual perseguição aos sites de compartilhamento de arquivos, fora alguns hackers que procuram fazer justiça com o próprio teclado. Existe muita desinformação no ar. O dono do Megaupload é pintado como se fosse o vilão da história por alguns veículos, mas eu gostaria de deixar a minha ideia de como o fim do Copyright pode contribuir para a melhora da qualidade musical.

O sábio Hermeto Pascoal disse que o músico que luta pelo Copyright está mais preocupado com as notas de $ do que com as notas musicais. Não recordo se as palavras foram bem estas, mas a ideia se mantém. Tem muito aprendiz de artista por aí que está preocupado em ser famoso, ganhar muito dinheiro e pegar as garotas, deixando de lado o que deveria ser o mais importante: a música pela música, pela transcendência, pela estética, pela fruição. E alguns destes pseudo-artistas até acabam chegando ao sucesso: a indústria musical é tão poderosa que têm o poder de fabricar um artista, mesmo que este não tenha tanto talento assim.

É por este motivo que eu defendo que mudanças nas leis Copyright poderiam melhorar a qualidade estética musical, pelo fato de que isso dificultaria a criação de artistas baseados em um nichos de mercado. Os defensores do mercado fonográfico vão dizer que empregos serão perdidos, que produtores, operadores de grandes gravadoras vão perder mercado se a indústria não tiver dinheiro para pagar seus altos salários. Dizem também que a qualidade vai decair, não vai haver dinheiro para sustentar os megaestúdios. Mas, na boa, FODA-SE. Se empregos forem extintos de um lado, eles vão acabar sendo criados de outro. Talvez não haja mais mercado para um megaprodutor da Sony que fatura milhões, mas será aberto um mercado gigantesco para pequenos produtores que podem até ser mais criativos e inventivos do que estes que já dominam o mercado. O aspecto da qualidade também é bastante questionável, uma vez que hoje existem vários programas amadores que conseguem resultados semelhantes aos dos profissionais.

Sabe-se que muitas vezes a produção opta pelo que é mais comercial, fácil de vender. Música é matemática. Existem várias fórmulas para se fazer uma música de sucesso (intro/Versos1/Refrão/Versos2/Refrão/Bridge/Refrão/Conclusão) e algumas utilizam até as mesmas notas básicas. Muitos já devem ter visto aquele vídeo onde a banda toca uma série de músicas famosas utilizando os mesmos 4 acordes (http://www.youtube.com/watch?v=oOlDewpCfZQ). Não quero dizer que não é possível fazer uma música boa seguindo estas fórmulas, mas será que devemos ficar tão atrelados a estes velhos conceitos? Será que não se pode fazer uma música boa e de grande sucesso sem seguir nenhuma destas estruturas? Eu tenho certeza que se pode, mas enquanto houver  um domínio da grande indústria, dificilmente ela vai chegar aos ouvidos do povo.

Outro aspecto desta luta é a parte técnica. Afinal de contas, quem inventou a digitalização? Foi a própria indústria que passou a armazenar tudo em arquivos digitais, foi uma revolução para eles inclusive. Grandes acervos musicais de gravadoras hoje podem ficar guardados em pequenos HDs. Isso facilitou e barateou os custos de produção. A indústria do Copyright deve ter adorado a invenção da digitalização. O que eles não gostaram foi quando aquele garoto “nerd” conseguiu quebrar a proteção do CD e copiar todas suas músicas para o computador. Antigamente ninguém ficava preocupado com direitos autorais quando se gravava fitas K7 ou quando se emprestava livros para os amigos. A diferença é que hoje em dia a tecnologia facilitou muito as coisas, uma única pessoa pode comprar um CD e distribuir para milhares de outras pela internet. Mas foi a indústria que criou a multiplicação digital. Os usuários apenas se apropriaram destas inovações tecnológicas e fizeram o melhor uso que eles imaginaram destas facilidades. É o compartilhamento de cultura.

Há alguns anos, pintores eram contratados para retratar cenas e mantê-las eternizadas para as próximas gerações. Com a invenção da fotografia, essa profissão foi desaparecendo com o tempo. Já não se tinha a necessidade de ficar horas pintando um quadro quando se podia registrar a mesma cena em instantes. E o que os pintores da época fizeram? Se juntaram a fim de destruir essa maldita invenção que estava roubando seus empregos? Não, eles é que tiveram que se adaptar. Da mesma forma acontece hoje em dia. A indústria deve se juntar para destruir as tecnologias de compartilhamento de arquivos prejudicando uma grande parcela da sociedade que utiliza esses serviços? Ou são eles que devem se adaptar aos novos tempos?

A indústria do Copyright está indo na contramão da história. O compartilhamento de arquivos é uma realidade e dificilmente vai deixar de existir, mesmo com todo esse esforço que está sendo empregado para destruí-lo. Alguns artistas já chegaram a conclusão de que não adianta lutar contra isso. Radiohead disponibilizou seu álbum In Rainbows na internet de forma que o usuário poderia pagar quanto ele quisesse para baixar o disco, podendo até mesmo não pagar nada. E qual foi o resultado? Eles acabaram ganhando muito dinheiro com o lançamento do álbum digital, muito mais do que receberiam se tivessem lançado somente em forma de CD convencional. No Brasil, o rapper Emicida também lançou seu último trabalho de forma gratuita na internet. Ele conseguiu o apoio de uma grande marca que patrocinou o álbum em troca de publicidade para a marca, de participação em eventos e outras formas de promoção. O que estes artistas têm em comum? Eles já perceberam que vender CD é coisa do século XX, que nós já estamos no século XXI e que os artistas devem, o quanto antes, arrumar outras formas de ganhar dinheiro. Caso contrário, ficarão para trás no bonde da história.

Veja bem, eu não acho que outras pessoas devam ganhar dinheiro com a arte de terceiros. Acho, inclusive, que qualquer veiculação comercial deva pagar uma parte os artistas. Órgãos como o ECAD já arrecadam direitos autorais em festas, rádios, emissoras de televisão, cinemas, etc. Agora, a reprodução privativa, para uso pessoal e sem fins lucrativos, esta, na minha opinião, deveria ser totalmente livre de qualquer tipo de direito autoral. Eu acho inaceitável que se tente impedir as pessoas de ouvir boa música somente pelo fato de que ela não pagou para adquirir aquela cópia do arquivo digital. Ressalto aqui, é uma cópia, não é um roubo. Índios acreditavam que, ao serem fotografados, suas almas eram roubadas e apreendidas dentro da foto. É a mesma lógica de quem pensa que copiar é roubar. Copiar um disco não retira nada do dono do disco, ele vai continuar com seu disco ali, inteiro, da mesma forma que antes. Você vai apenas possuir uma cópia dele. “Ah, mas o artista não está ganhando nada com a reprodução de sua música”. Como eu já falei, o artista que deve se adaptar, fazer mais shows, vender patrocínios, fazer parcerias, não sei, sejam criativos, não existe uma única fórmula. Eu acredito que, para o artista, a melhor coisa seja o reconhecimento. Quanto mais pessoas escutarem e gostarem se sua música, mais recompensador será. Agora, querer ganhar com a cópia? Este tempo já passou. Hoje sabemos que os custos de reprodução são ínfimos. Um CD com baixíssimo custo de fabricação, podendo chegar a centavos, é vendido por R$ 30,00 ou mais. Existe algo de errado aí e as pessoas sabem disso. Elas já não estão mais dispostas a pagar tão caro por estas reproduções.

O que quero dizer com tudo isso é que talvez essas mudanças façam bem aos nossos ouvidos. Quem sabe, ao mudarmos as regras do Copyright, as grandes gravadoras não percam força, tendo menos poder e dinheiro para lançar artistas de talento duvidável amparados por uma produção grandiosa? Quem sabe isso não abriria espaço para artistas independentes, mais focados na qualidade musical e menos no retorno financeiro? Quem sabe não acabe existindo menos espaço para Britneys e Biebers e mais espaço para Radioheads e Emicidas? Quem sabe? Eu não sei, mas pago para ver o fim dessa guerra. Aliás, eu não pago, eu copio para ver.

Fábio Born.

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